Pelo Dia Internacional da Mulher: “Ontem me mataram…”

O dia de hoje marca a reafirmação da necessidade da luta pela emancipação das mulheres e de lembrar e comemorar as grandes conquistas das lutas sociais, onde as mulheres são as protagonistas. Além disso, é uma data importantíssima para fortalecer as bandeiras de luta e romper os desafios contemporâneos que ainda limitam mulheres do mundo inteiro no âmbito social, cultural e político.

Segue a carta escrita pela Paraguaia Guadalupe Acosta, em homenagem à Marina Menegazzo e María José Coni, as duas mulheres argentinas que viajavam juntas e estavam no Equador. 

Eu poderia dizer um pouco mais sobre os dilemas que nós, mulheres, enfrentamos cotidianamente, mas a carta basta.

Espero que gostem e reflitam também.

“Ontem me mataram.
Me neguei a deixar que me tocassem e, com um pedaço de pau, me arrebentaram o crânio. Me deram uma facada, e me deixaram morrer sangrando.
Como lixo, fui enfiada em uma sacola plástica, fechada com fita adesiva, e fui jogada em uma praia, onde horas mais tarde me encontraram.
No entanto, pior do que a morte, foi a humilhação que veio depois. Desde o momento em que encontraram meu corpo inerte, ninguém se perguntou onde estava o filho da puta que acabou com meus sonhos, minhas esperanças, minha vida.
Não, mas logo começaram a me fazer perguntas inúteis. A mim, imaginem, uma morta, que não pode falar, que não pode se defender.
– Que roupa você usava?
– Por que andava sozinha?
– Como uma mulher vai viajar desacompanhada?
– Estava em um bairro perigoso, o que esperava?
Questionaram os meus pais, por me darem asas, por deixarem que eu seja independente, como qualquer ser humano. E disseram que, seguramente, nós andávamos drogadas e buscamos por isso, que alguma coisa nós fizemos, que nós deveríamos ter sido vigiadas.
E só morta eu entendi que não, para o mundo, eu não sou igual a um homem. Que morrer foi minha culpa, que sempre vai ser. Enquanto que se a notícia fosse ‘dois jovens turistas mortos’ as pessoas estariam prestando condolências e, com seu discurso falso e hipócrita de dupla moral, pediriam pena maior aos assassinos.
Mas quando é uma mulher, se minimiza. Se torna menos grave, porque é claro, eu mesma busquei. Fazendo o que eu queria, encontrei o que merecia por não ser submissa, por não querer ficar dentro de casa, por investir meu próprio dinheiro em meus sonhos. Por isso e por muito mais, me condenaram.
Me entristeci, pois não estou mais aqui. Mas você está. E é mulher. E tem que aturar o mesmo discurso de “se dar valor”, de que é sua culpa que gritem na rua que querem tocar/lamber/chupar seus genitais porque você veste um short com 40 graus de calor, de que se você viaja sozinha você é “louca” e que muito seguramente, se algo acontece com você, se pisoteiam os seus direitos, foi você que buscou isso.
Peço que por mim e por todas as mulheres que foram caladas, silenciadas, que tiveram suas vidas e seus sonhos acabados, você levante a voz. Vamos brigar, ao seu lado, em espírito, e prometo que um dia seremos tantas, que não vão existir sacos plásticos suficientes para nos calarem.”

Até mais, minhas Amoras, mulheres de luta!

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